26 outubro, 2008

Segundo turno

Domingo, 26 de outubro de 2008.



Geraldo abriu os olhos, sentiu a luminosidade proveniente da janela semi-aberta cegar-lhe, momentaneamente. Esfregou-os veementemente enquanto bocejava e espreguiçava-se. Afastou o lençol, sentando-se na cama. Olhou para a fresta da janela e percebeu a chuva que castigava a cidade desde o dia anterior continuava sem trégua. O desânimo que o acompanhara durante toda a semana ainda o dominava.


Levantou, finalmente, cambaleando entre a desordem de seu quarto-sala, rumando ao banheiro para aliviar a bexiga.


Enquanto deixava sua urina escorrer privada abaixo, pensava que além de todas as desgraças que estava passando tinha que exercer seu dever de cidadão. Tinha que votar.


Cidadão??? Será que a sociedade ainda o considerava um cidadão?


Desempregado há muitos meses, vivendo da boa vontade alheia e de “bicos” que esporadicamente apareciam. Nada na sua área de trabalho. Tinha que comer, então fazia o que aparecia. Tinha que comer. Fato.


Pensou enquanto lavava as mãos. Olhou ao redor e notou a deterioração do seu banheiro. Paredes descascadas, cano d’água sem chuveiro, descarga quebrada, odor fétido de urina choca. Aquilo não era um local digno para um ser humano viver.


Saiu daquele ambiente inóspito e retornou ao quarto-sala tão degenerado quanto o outro. Abriu a geladeira. Só água. Debruçou-se sobre a porta do eletro doméstico, suspirando. Não havia solução. E o pior é que ainda tinha que votar.


Votar??? Para quê votar? Resolveria seus problemas?


Todas as vezes que exerceu a “democracia” a coisa só parecia piorar. No início, ele tinha esperanças de que poderia mudar o rumo do país, que as coisas poderiam melhorar, que os pobres poderiam viver com dignidade, alimentando-se pelo menos três vezes por dia.


Algumas vezes pareceu que a coisa andaria. Mas nada disso ocorreu. Tudo só piorou.


Fechou a porta da vazia geladeira e girando nos calcanhares foi até uma pilha de roupas. Colocou a primeira camiseta que parecia limpa e uma calça jeans surrada. Calçou o tênis quase sem sola e voltando ao fétido banheiro, jogou uma água nos cabelos e no rosto. Olhou-se no espelho e teve a visão da derrota. Viu a sua face, desfigurada, olheiras profundas, barba por fazer de alguns dias e um olhar perdido, como se não estivesse mais neste mundo.


Ficou alguns minutos encarando-se. Lembrou-se de um Geraldo diferente, com esperanças, com vida, com entusiasmo. Um Geraldo que fazia acontecer, que não se entregava diante de uma dificuldade.


As lágrimas que escorreram de seu rosto, fundiram-se com a água recém derramada na pia amarelada.


As coisas não poderiam mais continuar assim. Não mesmo.


Sem secar o rosto e os cabelos, iniciou uma procura incessante nas poucas gavetas que havia no recinto adjacente. Jogava objetos ao chão, movia-se com rapidez. Na segunda gaveta encontrou o que procurava. Seu título de eleitor. Tinha deixado ali após votar no primeiro turno.


O pequeno documento repousava no fundo da gaveta de um velho móvel. Estava um tanto quanto amassado, porém legível.


Ameaçou fechar a gaveta e com o movimento de empurrá-la um pequeno objeto rolou do fundo para a borda da gaveta fazendo com que Geraldo interrompesse seu movimento inicial. Era metálico e cilíndrico. Pegou-o e identificou: um projétil.


Ao manusear o pequeno projétil, lembrou de onde ele viera.


Em um de seus vários momentos de desespero a procura de emprego, Geraldo encontrou um de seus amigos de infância. Esse amigo utilizava meio ilícitos para ganhar a vida e convidou Geraldo a entrar em um assalto com ele, prometendo ganhos fáceis e rápidos.


O desespero falou por Geraldo que aceitou na hora.


Seu amigo depositou-lhe uma arma em uma das mãos e alguns projéteis na outra.


Na noite que se daria o delito, Geraldo foi tomado de uma crise de choro e desistiu a tempo, porém nunca mais voltou para devolver a arma. Escondeu a arma em cima do guarda roupas com o intuito de um dia entregar.


Interrompeu as reminiscências enfiando a mão mais ao fundo da gaveta e colhendo mais três projéteis. Correu para o guarda roupas e tateou-o até achar a arma de fogo que ali estava.


Com ela na mão, teve uma idéia.


Sorriu, mostrando os dentes amarelados, e começou a balbuciar sozinho enquanto municiava aquela que seria o personagem principal de seu plano. Quando terminou, colocou-a na cintura, na parte de trás das calças, o título de eleitor no bolso e saiu, batendo a porta atrás de si.


Votava em uma escola, não muito longe de sua morada, por isso resolveu ir a pé, pois caminhar sempre lhe fez pensar. Pensou, pensou e esquematizou como faria tudo. Não tinha erros. Ele salvaria o país com seu ato.


A fila estava pequena e a cada pessoa que entrava o frio na barriga de Geraldo aumentava.


Enfim, sua vez chegou.


Entrou. Tirou o título do bolso e mostrou ao mesário. Este conferiu e passou para a presidente de mesa. Foi aí que Geraldo notou a presença de Alice.


Alice foi sua namorada durante muito tempo. Geraldo terminou o namoro por não se achar digno do amor de uma moça tão trabalhadora, enquanto ele definhava na inutilidade.


A moça nunca se conformou e vez por outra o ajudava quando a dificuldade era muita.


Fazia muito tempo que Geraldo não a encontrava e agora ela estava ali como presidente de mesa da sua seção. No local onde ele escolheu para colocar seu plano em ação. Mas ele não poderia recuar. Não iria recuar.


Ela o cumprimentou e disse que ele já poderia votar.


Passo a passo, Geraldo caminhou em direção ao biombo. Olhou para a urna eletrônica, digitou os números do primeiro candidato. Olhou a foto da cara deslavada na foto. Cancelou. Digitou os números do segundo candidato. Novamente olhou a foto com desdém. Cancelou outra vez.
Digitou dois números aleatórios, pensando anular o voto. Cancelou mais uma vez.


Debruçou-se sobre a urna, abraçando-a. Ergueu a caixa eletrônica e retirou a arma da cintura.


Com uma das mãos agarrou a urna e apontou a arma para ela como se fosse um refém.


Saindo de trás do biombo, alternava a mira da arma entre a urna e os mesários, ordenando que saíssem da sala.


Dois deles saíram correndo, prontamente, porém Alice ficou estática, olhando para Geraldo.


- Vai Alice! – gritava Geraldo.
-Não sei o que tu está tramando Ge, mas não vou te abandonar. – respondia Alice, ainda pasma.
- Então tranca a porta e fecha todas as janelas! – dizia Geraldo a sua nova aliada.


Alice obedeceu prontamente.


Os mesários que correram em segundos espalharam a notícia que havia um homem dentro da seção e que tinha feito Alice de refém.


Em mais alguns segundos, a história já havia se espalhado mais e ainda houve quem aumentasse. Inevitavelmente o que chegou aos ouvidos da policia é que Geraldo não tinha suportado o rompimento do namoro entre ele e Alice e que a tinha feito de refém.


Minutos depois a votação ali tinha sido paralisada, o colégio evacuado e um cerco à sala já estava feito. E um negociador tinha sido colocado em contato com o celular de Alice, pois Geraldo não possuía um.


Enquanto o burburinho estava sendo feito do lado de fora, Geraldo explicava a Alice seu plano:


- Ge, o que tu está querendo com isso tudo? – perguntou Alice.
- Estou fazendo uma urna de refém, Alice, para ver se consigo chamar a atenção dos governantes desse país para as barbáries cometidas para com o povo. – respondia Geraldo, ofegante.
- Mas tu acha que vai dar certo isso? – questionava a moça, agachada junto a ele, num canto da sala.
- Sei lá, Alice, mas vou tentar. Tenho que tentar.


O celular de Alice tocava.


- Alô. – atendeu Geraldo.
- Alô. Geraldo?
- Isso. Isso mesmo.
- Meu nome é Celso. Sou da polícia e estou aqui para facilitar.
- Que bom Celso. Pois não quero ter que atirar nela. – dizia Geraldo apontando para a urna.
- Não será necessário, Geraldo. É só me dizer quais as suas condições para deixá-la sair.
- Quero um repórter com uma câmera de TV.
- Só isso? Se conseguirmos isso depois você a deixa livre?
- Deixo.
- Então ta. Vou providenciar.


Desligaram.


Celso virou-se para o comandante do batalhão e disse:


- Ele quer um repórter com uma câmera de TV para libertar a moça.
- Então, vamos dar o que ele quer. – disse o Comandante, chamando seu melhor atirador.


Geraldo estava excitadíssimo e contava sobre a conversa com o policial para Alice:


- Vou conseguir Alice!
- Geraldo, tu não pensa que vai ser preso por isso?
- Que nada, é só uma urna eletrônica...aliás, eu não sabia que eles davam tanta importância para uma urna.
-Pois é, nem eu...
- Mas não importa, posso até ser preso, mas vou aparecer nos telejornais de todo o país, manifestando minha indignação com a situação do país. – dizia Geraldo olhando para um horizonte que acabava ali na parede.


Duas horas depois, o celular de Alice toca novamente.


- Alô. - atendeu Geraldo.
- Geraldo, é o Celso novamente. Conseguimos seu repórter.
- Ótimo. Mande ele sozinho, somente com a câmera.
- Mandaremos.


Desligou.


Uma batida na porta.


Geraldo posicionou-se atrás do biombo com a urna. Alice quis ficar junto a ele.


Segunda batida na porta. Uma voz grita lá de fora:


- Ei, sou o repórter!
- Entre, mas sem gracinhas senão meto uma bala nela!
- Ok. Ok. Onde fico?
- Pode ficar aí mesmo...- disse Geraldo apontando a arma para um canto da sala.


Geraldo ia começar o discurso quando o repórter disse:


- Aí atrás deste biombo não tem luminosidade suficiente para gravar.
-Mas é aqui que vou ficar.
- Ali perto da janela é melhor. – disse o repórter.
- Não banque o engraçadinho! – gritou Geraldo.
- Só quero pegar mais luminosidade...
- Conheço muito bem esse papo...tu é policial disfarçado!
- Não! Não sou!
- É agora que vou meter uma bala nela!


Ao escutar isso o atirador disfarçado disparou a arma que estava camuflada na câmera, atingindo em cheio a cabeça de Geraldo, espirrando sangue em Alice que estava ao seu lado.


Alice gritou ao ver o corpo inerte de Geraldo ali caído e partiu pra cima do policial, soqueando a esmo como um movimento de desespero, gritando:


- Ele só queria falar o que sentia! Ele só queria falar o que sentia!
- Mas ele ia matar você! – dizia o policial segurando as mãos de Alice.
- Não! Ele ia meter uma bala na urna. – disse Alice aos prantos.
- Na urna???
- Sim...

***




Segunda-feira, 27 de outubro de 2008


Manchete de um jornal importante no dia seguinte:


Polícia mata seqüestrador e evita uma tragédia.


Mais um seqüestro passional foi registrado ontem, porém este teve um final menos trágico graças à ação da policia.


O seqüestrador foi abatido por um atirador disfarçado no momento em que ia atirar em sua refém.


A ação foi feita devido aos erros recentes da polícia em negociações de seqüestros.


Geraldo Santos, não suportando o término do namoro, resolveu seqüestrar Alice Ávila que estava trabalhando no segundo turno das eleições. O rapaz descobriu onde ela estaria e planejou tudo antecipadamente.


Alice Ávila não foi ferida e desmente a versão da polícia dizendo que Geraldo seqüestrou uma urna eletrônica para ter a atenção da mídia, pois queria protestar contra os governantes com relação à situação do país.


Especialistas dizem que é normal a vítima inventar esta história absurda devido à Síndrome de Estocolmo, mal que atinge as vítimas de seqüestros.

4 comentários:

Gabriel Bedin Slevinski disse...

E eu pergunto..
Cade o Povo, nossa luta, nossa indignação, nossa esperança, o que fizemos com o nosso voto?

E o silêncio me responde...
O povo tem mais o que fazer, assitir, vibrar, sambar..
Somos um povo tristemente manipulado...
O resultado dessas eleições escancaram o trabalho de marqueteiros, enganadores e o fundamental papel do dinheiro em uma campanha política.
Sim, o dinheiro que transforma o belo em feio e o FEIO e falsário em Eleito..

(segunda-feira pra se esquecer)

Belo Post..
.

Déda disse...

Poder da mídia.... Muitas tragédias são auferidas por este poder tão majestoso quanto devastador. O telefone “sem fio”... o disse me disse... os devaneios de uma má informação... a falta da certeza, entre outros... são elementos fundamentais para montar uma máquina desumana, fria e cruel!!! O homem passa ser fruto da mídia de forma “oca”, dando créditos para imagens manipuladas, ou ainda, verdadeiramente, distorcidas dos fatos. A sociedade está engendrada em um estigma pronto, no qual a mídia se torna poderosa, tornando-se o quarto poder!!!

Liliane Sastre Nunes disse...

Primeiro quero agradecer tua visita lá no meu blog...o coitado tá meio ambandonado (correria da vida adulta) mas na medida do possível eu passo por lá! E fiquei feliz em saber que tem alguém que lê rss...
Esse teu post eu poderia dizer que é um pouco forte quanto a história (aliás, é verídica??) mas o que é forte para a relidade que temos hoje? A mídia é a única que tenta e consegue piorar o que já não é bom em cima da tragédia alheia. E esse pobre coitado ai só queria demonstrar sua indignação enquanto tantos outros ficam calados.
Beijos e apareça!

Palavras de um mundo incerto disse...

Irmão, é isso o que a DEMOCRACIA, o nosso pais defende: CENSURA.

Ao ler sua escrita, lembrei daquele senhor que protestou junto da bandeira do Brasil, ao descaso dos políticos perante ao povo.

Disseram que ele estava louco. Foi encaminhado a psiquiatria. Cadê esse senhor?

A mídia esconde a realidade da nação.


Abs!!!



Marcos Seiter